História

 

Uma história de Orange

 

por Guilherme Lenin

 

 

Estavam as forças conspiratórias da estupidez reinando sobre o mundo, convergidas sobre aquele pedacinho de mundo chamado Reino de Porto Claro. Tudo parecida perdido, e o sonho de um mundo diferente, no limite entre a realidade e o desejo estava se perdendo. 

Foi quando, imbuídos do ideal de combater a estupidez reinante, quinze nobres cidadãos do então Reino de Porto Claro decidiram abandonar aquele país e construir uma nova nação, ou melhor, uma nova maneira de conviver. Nascia então, nas outras margens do rio Oiapoque, o Principado de Orange. 

O Principado de Orange, seguindo a filosofia democrática e não intervencionista da qual foi criado, nasceu uma confederação. O constituíam o Margraviado das Duas Pirraines, terra mãe dos maiores nobres e dos melhores vinhos do micromundo e a República de Lafayete, uma das micronações mais antigas do mundo. 

Os Orangers desfrutaram então de um período de paz e quase ausência de conflitos. Tudo ia bem até que um agente das forças conspiratórias, que simplesmente não aceitavam a existência desta terra, colocou poderoso sonífero nos galões de vinho da Real Adega. Aos poucos, a população foi entrando num profundo sono e o país entrou num grande período de inatividade. 

Tentando acordar sua bela adormecida de seu sono e devolve-la à atividade, o então governo do Margraviado das Duas Pirraines decreta o fim da Confederação e a fusão de todos os territórios do Principado. Porém isso não foi suficiente. 

Pensou-se então que casando-se com um príncipe despertaria de seu sono. Os Orangers assinaram então com o Sacro Império de Reunião um ato de união, através do qual Orange se tornaria um protetorado do Império. Mas o sonho não abandona seus filhos. Vendo que o futuro esposo da micronação de seu povo estava seriamente comprometido com as forças conspiratórias da estupidez, os olhos laranjas foram abertos e, uma vez desmascarado o ‘príncipe encantado’, após muitas discussões, revogou-se o ‘ato de união’. 

Orange conheceu então seu período de maior crescimento – econômico e intelectual. Uma infinidade de novas empresas – jornais, rádios, portais, universidades – eram criadas, assim como grandes projetos, como o Sistema Econômico Simulado e Língua Oranger começavam a sair do papel.

Mas houve um tempo negro nas terras de Melek, onde muito sangue laranja foi derramado. Uma infinidade de golpes, contra golpes, renuncias e ‘desrenuncias’ levaram o país à beira de uma guerra civil. O país viveu um período de relativa anarquia estando perigosamente comprometido com a estupidez. 

Porém os mares do cabo Oranger voltaram a se acalmar. Não por preguiça, sono ou semelhante. Mas porque o sonho Oranger de um mundo melhor era por demais grande para poder simplesmente morrer. Um plebiscito foi realizado e decidiu-se que Orange passaria a ser uma república. Havia todo um país a ser reconstruído e todo um sonho a ser vivido. 

As forças reinantes da estupidez, entretanto, não aceitaram a derrota. Coordenadas por seu grande porta voz, o Imperador de Reunião, lançaram contra o Oiapoque um dos maiores ataques da história micronacional. Os nobres Orangers, porém, resistiram bravamente, como tinha que ser, e as forças conspiratórias da estupidez foram mais uma vez derrotadas. 

Hoje o sol nasce e morre laranja, todos os dias, na terra dos filhos do sonho. Lutam os Orangers de agora para reconstruir seu país, uma terra onde eles – e quem mais quiser – poderão viver ‘no limite entre o céu e o mar, no limite entre a realidade e o desejo, numa opção de vida em evolução contínua para aqueles que querem viver longe da estupidez reinante’.

 

Guilherme Lenin é Professor de História da Universidade de Orange.


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